IX. A JUSTIFICAÇÃO
1. Termos Bíblicos Para Justificação e Seus Significados
a. O Termo do Velho Testamento
O termo hebraico para “justificar” é hitsdik ( ) , que, na grande maioria dos casos, significa “declarar judicialmente que o estado de uma pessoa está em harmonia com as exigências da lei” (Ex 23:7; Dt 25:1; Pv 17:15; Is 5:23). O piel tsiddek ( ) ocasionalmente tem o mesmo significado (Jr 3:11; Ez 16:50,51). O sentido destas palavras é, pois, estritamente forense ou legal.
Que esta é a denotação certa se vê pelos seguintes elementos:
i. Pelos termos postos em contraste com ele, como, por exemplo, “condenação” (Dt 25:1; Pv 17:15; Is 5:23).
ii. Pelos termos correlatos colocados em justaposição com ele e que muitas vezes implicam um processo de julgamento (Gn 18:25; Sl 143:2).
iii. Pelas expressões equivalentes às vezes empregadas (Gn 15:6; Sl 32:1,2).
iv. Pelo fato de que passagens como a de Pv 17:15 redundariam num sentido impossível, se a palavra significasse “tornar justo”.
b. Os Termos do Novo Testamento
b.1 O verbo dikaioo ( ): Significa, em geral, “declarar que uma pessoa é justa”. Ocasionalmente se refere a uma declaração pessoal de que o caráter de moral da pessoa está em conformidade com a lei (Mt 12:37; Lc 7:29; Rm 3:4). Em Paulo é “declarar em termos forenses que as exigências da lei, como condição de vida, estão plenamente satisfeitas com relação a uma pessoa”, (At 13:39; Rm 5:1,9; Rm 8:30-33; I Co6:11; Gl 2:16; Gl 3:11). Assim como hitsdik ( ), o sentido forense é comprovado pelos seguintes fatos:
i. Em muitos casos ela não se presta para outro sentido (Rm 3:20-28; Rm 4:5-7; Rm 5:1; Gl 2:16; Gl 3:11; Gl 5:4).
ii. É posta em relação antitética com o termo “condenação” (Rm 8:33,34).
iii. Expressões equivalentes e intercambiáveis veiculam uma idéia judicial ou legal (Jo 3:18; Jo 5:24; Rm 4:6,7; II Co 5:19).
iv. Se não tivesse este sentido, não haveria distinção entre justificação e santificação.
b.2 A Palavra dikaios ( ): Esta palavra nunca expressa o que uma coisa é em si mesma, mas sempre o que é em relação a alguma outra coisa, a algum padrão que está fora dela, ao qual ela deveria corresponder. Nesse aspecto, difere de agathos ( - Mc 10:18), que expressa a idéia de que uma coisa corresponde em si mesma ao ideal. Na Escritura, um homem pode ser chamado dikaios quando, no juízo de Deus, a sua relação com a lei é o que deve ser, ou quando a sua vida é tal como se requer que seja, por sua relação judicial com Deus.
b.2 O Substantivo dikaiosis ( ): Vê-se apenas em dois lugares do Novo Testemento (Rm 4:25 e Rm 5:18). Denota o ato de Deus pelo qual Ele declara os homens livres da culpa e aceitáveis a Ele. O estado resultante é indicado pela palavra diakaiosyne ( ).
2. A Doutrina da Justificação na História
a. A Doutrina Antes da Reforma
Alguns dos mais antigos pais da igreja, assim denominados, já falavam da justificação pela fé, mas não tinham um claro entendimento da justificação e da sua relação com a fé. Além disso, não distinguiam agudamente entre a regeneração e a justificação.
Mesmo Agostinho não parece ter tido uma correta compreensão da justificação como um ato legal, distinto do processo moral da santificação, embora seja evidente, pelo teor dos seus ensinamentos e também por declarações isoladas que ele considerava a graça de Deus na redenção dos pecadores como livre (gratuita), soberana e eficaz, e de modo nenhum dependente de quaisquer méritos dos homens.
De acordo com os ensinos predominantes do escolásticos, a justificação inclui dois elementos:
i. os pecados do homem são perdoados
ii. E ele é transformado em justo ou reto.
Para Tomáz de Aquino, a graça é infundida no homem, e, por esta graça infusa ele é tornado justo, e, em parte com base nela, os seus pecados são perdoados. Isto já foi uma aproximação à daninha doutrina dos méritos humanos, que se desenvolveu gradativamente na Idade Média, em conexão com a doutrina da justificação.
A confusão da justificação com a santificação levou também a opiniões divergentes sobre este ponto. Alguns escolásticos falavam da justificação como uma ato instantâneo de Deus, enquanto outros a descreviam como um processo.
O Concílio de Trento assim estabeleceu a questão da justificação:
i. No capítulo XVI, cânone IX: “se alguém disser que somente pela fé o ímpio é justificado em termos tais que signifique que nada mais se requer para cooperar para a obtenção da graça da justificação, e que de modo nenhum é necessário que ele seja preparado e ajustado pelos impulsos da sua própria vontade: seja anátema”.
ii. E o cânone XXIV: “Se alguém disser que a justiça recebida não é preservada e que também não é aumentada diante de Deus por meio das boas obras, mas que ditas obras são simplesmente frutos e sinais da justificação obtida, e não uma causa do seu aumento: seja anátema”.
b. A Doutrina Depois da Reforma
Os Reformadores corrigiram o erro de confundir a justificação com a santificação, salientando o seu caráter legal e descrevendo-a com um ato da livre graça de Deus pelo qual ele perdoa os nossos pecados e nos aceita como justos aos seus olhos, mas não nos muda interiormente. No que interessa à base da justificação, eles rejeitaram a idéia romana de que ela está, ao menos em parte, na justiça inerente dos regenerados e nas boas obras, e a substituíram pela doutrina de que o seu fundamento se acha unicamente na justiça do Redentor a nós imputada. E com relação ao meio da justificação, eles davam ênfase ao fato de que o homem é justificado gratuitamente pela fé que recebe a Cristo e nele descansa unicamente para a salvação. Eles rejeitaram a doutrina de uma justificação progressiva, e afirmavam que ela é instantânea e completa, e não depende para s sua consumação de mais nenhuma satisfação pelo pecado.
Os Socinianos sustentavam que os pecadores obtém perdão e aceitação da parte de Deus, por sua misericórdia, com base em seu arrependimento e em sua reforma pessoal.
Os Arminianos, em geral, limitam o escopo da justificação de modo a incluir somente o perdão dos pecados, com base na obediência passiva de Cristo e a excluir a adoção do pecador pelo favor divino ou a base da justiça de Cristo imputado ao pecador. Este só é considerado justo com base em sua fé ou em sua vida de obediência.
3. A Natureza e Características da Justificação
A justificação é um ato judicial de Deus, mo qual Ele declara, com base na justiça de Cristo, que todas as reivindicações da lei são satisfeitas com vistas ao peca,dor. Ela é um ato judicial, e não um processo de renovação, como é o caso da regeneração, da conversão e da santificação. Não afeta a sua condição, mas, sim, o seu estado ou posição. Ela envolve o perdão dos pecados e a restauração do pecador ao favor divino (Rm 5:1-10; At 26:18). Devemos observar os seguintes pontos de diferença entre a justificação e a santificação:
i. A justificação remove a culpa do pecado e restaura o pecador a todos os direitos filiais envolvidos em seu estado de filho de Deus, incluindo a herança eterna. A santificação remove a corrupção do pecado e renova o pecador constantemente e crescentemente, em conformidade com a imagem de Deus.
ii. A justificação dá-se fora do pecador, no tribunal de Deus, e não muda a sua vida interior. A santificação ocorre dentro do homem, e tem seus frutos evidenciados na vida.
iii. A justificação acontece uma vez por todas. Não se repete, e não é um processo. A santificação é um processo contínuo, que jamais se completa nesta existência.
iv. Na economia divina, Deus Pai é quem justifica e o Espírito Santo quem santifica.
4. Elementos da Justificação
a. O Elemento Negativo
Há primeiramente um elemento negativo na justificação, qual seja, a remissão dos pecados com base na obra expiatória de Cristo.
O perdão concedido na justificação aplica-se aos pecados passados, presentes e futuros, e , desse modo, envolve a remoção de toda culpa e de toda a penalidade. Isto decorre do fato de que a justificação não admite a repetição, e de passagens como Rm 5:21; Rm 8:1,32-34; Hb 10:14; Sl 103:12; Is 44:22, que nos asseguram que ninguém pode lançar nada na conta do homem justificado, que está isento da condenação, e que é constituído herdeiro da vida eterna.
Esta concepção de justificação, embora eminentemente escriturística, não está livre de dificuldade. Os crentes continuam a pecar depois de justificados (Tg 3:2; I Jo 1:8). Daí, não admira que Barth goste de acentuar o fato de que o homem justificado continua sendo um pecador, se bem que um pecador justificado. Cristo ensinou os seus discípulos a orar diariamente pelo perdão dos pecados (Mt 6:12), e os santos da Bíblia estão frequentemente suplicando e obtendo perdão (Sl 32:5).
Dos dados para os quais chamamos a atenção, a igreja católica infere que os crentes precisam, de algum modo, expiar os pecados cometidos depois do batismo, e, daí, crê também numa justificação crescente.
Por outro lado, os antinomianos, desejando honrar a ilimitada graça perdoadora de Deus, afirmam que é completamente desnecessário orar pelo perdão dos pecados.
Por temor desta última posição, até alguns teólogos reformados sentiam escrúpulos quanto ao ensinar que os futuros pecados dos crentes também são perdoados na justificação, e falavam de uma justificação repetida, e mesmo de uma justificação diária. Contudo, a posição usual da teologia reformada calvinista é que, na justificação, Deus deveras remove a culpa , mas não a culpabilidade do pecado, isto é, ele remove a justa sujeição do pecador à punição, mas não a culpabilidade inerente de quais quer pecados que ele continue praticando. Esta permanece, e, portanto, produz sempre nos crentes um sentimento de culpa, se separação de Deus, de tristeza, de arrependimento, e assim por diante. Daí, eles sentem a necessidade de confessar os seus pecados, mesmo os pecados da sua mocidade (Sl 25:7). O crente que está realmente cônscio do seu pecado, sente no íntimo uma compulsão que o impele a confessá-lo e a buscar a consoladora segurança do perdão.
b. O Elemento Positivo
Há também um elemento positivo na justificação , o qual se baseia mais particularmente na obediência ativa de Cristo.
Os arminianos negam a imputação da obediência ativa de Cristo ao pecador, com isso negam também o elemento positivo da justificação. De acordo com eles, a justificação deixa o homem sem nenhum direito à vida eterna, coloca-o simplesmente na situação de Adão antes das queda, embora, segundo os arminianos, debaixo de uma lei diferente , a lei da obediência evangélica, e deixa a cargo do homem fazer por merecer a aceitação da parte de Deus e a vida eterna, pela fé e obediência. Mas é evidente, na Escritura, que a justificação é mais do que o perdão puro e simples.
Neste elemento positivo podemos distinguir duas partes:
b.1 A Adoção de Filhos: Os crentes são, antes de tudo, filhos de Deus por adoção. Esta adoção é um ato legal, pelo qual Deus coloca o pecador no estado de filho, mas não o transforma interiormente, como tampouco os pais mudam, pelo mero ato de adoção, a vida interior de um filho adotado.
b.2 O Direito à Vida Eterna: Quando os pecadores são adotados para serem filhos de Deus, são revestidos de todos os direitos filiais legais e se tornam herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo (Rm 8:17); eles se tornam herdeiros de todas as bênçãos da salvação. Na ordo salutis de Rm 8:29,30, a glorificação está ligada imediatamente à justificação. Sendo justificados pela fé, os crentes são herdeiros da vida eterna.
5. Esfera
a. Justificação Ativa ou Objetiva
Esta é a justificação no sentido mais fundamental da palavra. Consiste em numa declaração que Deus faz a respeito do pecador, declaração feita no tribunal de Deus. Não se trata de uma declaração de que Deus simplesmente absolve o pecador, sem levar em conta as reivindicações da justiça, mas, sim, de uma declaração de que as exigências da lei são satisfeitas. O pecador é declarado justo em vista do fato de que a justiça de Cristo lhe é imputada. Nesta transação Deus comparece, não como um soberano absluto que simplesmente põe de lado a lei, mas como um juiz justo, que reconhece os méritos infinitos de Cristo como uma base suficiente pára a justificação, e como um pai misericordioso, que perdoa e aceita graciosamente o pecador. Esta justificação ativa antecede logicamente a fé e a justificaão passiva, Cremos no perdão de pecados.
b. Justificação Passiva ou Subjetiva:
A justificação passiva ou subjetiva tem lugar no coração ou na consciência do pecador. A concessão de perdão a um prisioneiro não significa nada, se as alegres noivas não lhe fossem comunicadas e as portas da prisão não fossem abertas. Quando a Bíblia fala de justificação, normalmente se refere àquilo que é conhecido como justificação passiva. Deve-se ter em mente, porém, que as duas são inseparáveis. Uma se baseia na outra.
6. Ocasião em Que se Dá a Justificação
Alguns teólogos separam cronologicamente a justificação ativa e passiva. Neste caso, dizem que a justificação ativa deu-se na eternidade, ou quando da ressurreição de Cristo, ao passo que a justificação passiva realiza-se pela fé, e, portanto, assim se diz, segue-se à outra, no sentido cronológico.
a. Justificação Desde a Eternidade
Os antinomianos afirmavam quer a justificação do pecador aconteceu na eternidade ou na ressurreição de Cristo. Segundo esta posição, somos justificados antes de cremos, embora inconscientes disto, e a fé apenas nos transmite a declaração deste fato.
Alguns teólogos reformados também falam de uma justificação desde a eternidade, mas ao mesmo tempo, recusam-se a subscrever a elaboração antinomiana desta doutrina.
As bases sobre as quais eles acreditam numa justificação desde a eternidade merecem breve consideração, vejamos:
a.1 Bases da Doutrina da Justificação Desde a Eternidade
i. A Escritura fala de uma graça ou misericórdia de Deus que é desde a eternidade (Sl 25:6). Ora, toda graça ou misericórdia que seja desde a eternidade tem que ter como sua base judicial ou legal uma justificação que seja também desde a eternidade. Entretanto, existem misericórdias e bondades eternas que não estão baseadas em nenhuma justificação do pecador, como, por exemplo, o seu plano de redenção, a dádiva de seu filho e a voluntária função de penhor exercida por Cristo no pactum salutis.
ii. No pactum salutis a culpa dos pecados dos eleitos foi transferida para Cristo, e a justiça de Cristo lhes foi imputada. Não há dúvida de que houve certa imputação da justiça de Cristo ao pecador no conselho da redenção, mas, devemos distinguir entre o que teve apenas um caráter ideal no conselho de Deus e aquilo que se concretiza no transcurso da história.
iii. O pecador recebe a graça inicial da regeneração sobre a base da justiça de Cristo a ele imputada. Contudo, o pecador não pode receber a graça da regeneração com base numa justificação existente idealmente no conselho de Deus e que conta com a certeza de que se concretizará na vida do pecador.
iv. As crianças também precisam da justificação, para serem salvas, e, todavia, é-lhes totalmente impossível experimentar a justificação pela fé. porém, embora as crianças que ainda não atingiram a maturidade não podem ter experiência da justificação passiva, podem ser justificados ativamente no tribunal de Deus e, assim, podem ter posse daquilo que é absolutamente essencial.
a.2 Objeções à Doutrina da Justificação Desde a Eternidade
i. A Bíblia ensina uniformemente que a justificação se dá pela fé. se a justificação se realiza pela fé, certamente não precede à fé. ora, é certo que os defensores da justificação desde a eternidade também falam da justificação pela fé. mas, na sua descrição da matéria, isto só pode significar que,, péla fé, o homem ganha consciência daquilo que Deus fez na eternidade.
ii. Em Rm 8:29,30 a justificação está entre dois atos de Deus realizados no tempo, quais sejam, a vocação e a glorificação.
b. Justificação na Ressurreição de Cristo
A idéia foi apregoada por alguns arminianos, é ensinada por teólogos reformados calvinistas que acreditam numa justificação desde a eternidade. Este conceito se funda na seguinte base:
i. Com sua obra expiatória, Cristo satisfez todas as exigências da lei pelo seu povo. Na ressurreição, o pai declarou publicamente que todas as condições da lei foram preenchidas para todos os eleitos e, com isso, eles foram justificados. Todavia, mesmo que seja verdade que houve uma justificação objetiva de Cristo em sua ressurreição, não se deve confundir isto com a justificação do pecador a que a Bíblia se refere. Não é verdade que, quando Cristo prestou plena satisfação ao Pai por todos os seus, a culpa destes acabou naturalmente. O débito penal não é como uma dívida pecuniária, neste sentido.no sentido escriturístico, os eleitos não são justificados enquanto não aceitam a Cristo pela fé, apropriando-se assim dos seus méritos.
c. Justificação pela Fé
Diz a escritura que somos justificados dia pisteos, ek pisteos, ou pistei (dativo) (Rn 3:25,28,30; Rm 5:1; Gl 2:16; Fp 3:9. a preposição dia (dia) salienta o fato de que a fé é o instrumento pelo qual nos apropriamos de Cristo e sua justiça. A preposição ek (ek) indica que a fé precede logicamente à nossa justificação pessoal, de sorte que, por assim dizer, esta tem sua origem na fé. o dativo é empregado no sentido instrumental. A Escritura nunca diz que somos justificados dia tem pistin (dia thn pistin) , por causa da fé. quer dizer que a fé nunca é apresentada como a base da nossa justificação. Se fosse, a fé teria que ser considerada como uma obra meritória do homem, e, a isto, o apóstolo coerente e consistentemente se opõe (Rm 3:21,27,28; Rm 4:3,4; Gl 3:6). Na verdade se nos diz que a fé que Abraão tinha foi imputada para justiça (Rm 4:3,9,22; Gl 3:6), mas, isto certamente não pode significar que, no caso deles, a fé propriamente dita, como uma obra, tomou lugar da justiça de Deus
Muitas vezes se diz, porém, que os ensinamentos de Tiago conflitam com os de Paulo sobre este ponto, dando claro apoio à doutrina da justificação pelas obras em Tg 2:14-16. Todavia, a diferença entre as exposições de Paulo e Tiago se deve, em parte, à natureza dos adversários que tiveram que defrontar. Paulo teve que combater os legalistas, que procuravam basear a sua justificação, ao menos em parte nas obras da lei. . Tiago, por outro lado, mediu forças com os antinomianos, que alegavam ter a fé, mas cujo fé era um simples assentimento intelectual à verdade (Tg 2:19), e negavam a necessidade da prática das boas obras. Portanto, ele dá ênfase ao fato de que a fé sem obras é uma fé morta, e, consequentemente, não é, de modo algum, a fé que justifica.
7. A Base da Justificação
Um dos pontos mais importantes da controvérsia entre a igreja de Roma e os reformadores, e entre a teologia reformada calvinista e os arminianos, tem que ver com a base da justificação. Com respeito a isto, os reformadores ensinavam:
i. Negativamente, que esta não pode achar-se nalguma virtude do homem, nem em suas obras. Roma ensina que o pecador é justificado com base na justiça inerente que foi infundida em seu coração e que, por sua vez, é fruto da cooperação à chamada primeira justificação; em toda justificação subseqüente, as obras do homem entram em consideração como a causa ou base formal da justificação. Contudo, até mesmo as melhores obras praticadas pelos crentes estão contaminadas pelo pecado. Ademais, a Escritura nos ensina com muita clareza que o homem é justificado gratuitamente pela graça de Deus (Rm 3:24), e que ele não tem nenhuma possibilidade de ser justificado pelas obras da lei (Rm 3:28; Gl 2:16; Gl 3:11).
ii. Positivamente, que a base da justificação só se pode achar na justiça perfeita de Jesus, justiça imputada ao pecador na justificação (Rm 3:24; Rm 5:9,19; I Co 1:30; II Co 5:21; Fp 3:9). Na obediência passiva de Cristo, que se fez maldição por nós (Gl 3:13), vemos a base para o perdão dos pecados, e em sua obediência ativa, pela qual ele mereceu todos os dons da graça, incluindo a vida eterna, vemos a base para adoção de filhos, pela qual os pecadores são constituídos herdeiros da vida eterna.
8. Objeções à Doutrina da Justificação
i. Alguns, que ainda crêem na salvação pela graça, dizem: “a justificação é uma transação legal e, nesta qualidade, exclui a graça, enquanto que a Bíblia ensina claramente que o pecador é salvo pela graça”. Porém, o substituto concedido em lugar dos pecadores foi uma expressão da graça de Deus.
ii. Às vezes a justificação é tida como um procedimento ímpio, porque declara, contrariamente aos fatos, que os pecadores são justos. Entretanto, a declaração divina não é no sentido de que estes pecadores são justos em si mesmo, mas que são revestidos da justiça perfeita de Cristo.
iii. Muitas vezes se diz que esta doutrina leva à licenciosidade. Todavia, na justificação, lançam-se os firmes fundamentos daquela união vital e espiritual com Cristo que assegura a nossa santificação. O homem que é justificado recebe também o espírito de santificação, e é o único tipo de homem que pode transbordar de boas obras que glorificam a Deus.
9. Conceitos Divergentes de Justificação
i. O conceito católico confunde justificação com a santificação: inclui os seguintes elementos na justificação: (a) a expulsão do pecado; (b) a infusão da graça divina; (c) o perdão dos pecados. E neste conceito, pode-se perder a graça da justificação, mas também ela pode ser restaurada pelo sacramento da penitência.
ii. Já os arminianos afirmam que Cristo não prestou estrita satisfação à justiça de Deus, mas, todavia, ofereceu uma real propiciação pelo pecado, propiciação aceita como satisfatória por Deus e por Ele posta como base para o perdão do pecado, e , assim, para justificação do pecador; embora isto só faça zerar as contas passadas. Para os pecados futuros, Deus imputa ao crente a sua fé, para justiça, a fé que inclui toda a vida religiosa do crente. Neste conceito, a fé não é mais o simples instrumento do elemento positivo da justificação, mas a base graciosamente admitida sobre a qual aquela repousa.
APÊNDICE
DA JUSTIFICAÇÃO
I. Os que Deus chama eficazmente, também livremente justifica. Esta justificação não consiste em Deus infundir neles a justiça, mas em perdoar os seus pecados e em considerar e aceitar as suas pessoas como justas. Deus não os justifica em razão de qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente em consideração da obra de Cristo; não lhes imputando como justiça a própria fé, o ato de crer ou qualquer outro ato de obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, quando eles o recebem e se firmam nele pela fé, que não têm de si mesmos, mas que é dom de Deus.
Rom. 8:30 e 3:24, 27-28; II Cor. 5:19, 21; Tito 3:5-7; Ef. 1:7; Jer. 23:6; João 1:12 e 6:44-45; At. 10:43-44; Fil. 1:20; Ef. 2:8.
II. A fé, assim recebendo e assim se firmando em Cristo e na justiça dele, é o único instrumento de justificação; ela, contudo não está sozinha na pessoa justificada, mas sempre anda acompanhada de todas as outras graças salvadores; não é uma fé morta, mas obra por amor.
João 3:16, 18, 36; Rom. 3:28, e 5: I; Tiago 2:17, 22, 26; Gal. 5:6.
III. Cristo, pela sua obediência e morte, pagou plenamente a dívida de todos os que são justificados, e, em lugar deles, fez a seu Pai uma satisfação própria, real e plena. Contudo, como Cristo foi pelo Pai dado em favor deles e como a obediência e satisfação dele foram aceitas em lugar deles, ambas livremente e não por qualquer coisa neles existente, a justificação deles é só da livre graça, a fim de que tanto a justiça restrita como a abundante graça de Deus sejam glorificadas na justificação dos pecadores.
Rom. 5:8, 9, 18; II Tim. 2:5-6; Heb. 10:10, 14; Rom. 8:32; II Cor. 5:21; Mat. 3:17; Ef. 5:2; Rom. 3:26; Ef. 2:7.
IV. Deus, desde toda a eternidade, decretou justificar todos os eleitos, e Cristo, no cumprimento do tempo, morreu pelos pecados deles e ressuscitou para a justificação deles; contudo eles não são justificados enquanto o Espírito Santo, no tempo próprio, não lhes aplica de fato os méritos de Cristo.
Gal. 3:8; I Ped. 1:2, 19-20; Gal. 4:4; I Tim. 2:6; Rom. 4:25; I Ped. 1:21; Col. 1:21-22; Tito 3:4-7.
V. Deus continua a perdoar os pecados dos que são justificados. Embora eles nunca poderão decair do estado de justificação, poderão, contudo, incorrer no paternal desagrado de Deus. e ficar privados da luz do seu rosto, até que se humilhem, confessem os seus pecados, peçam perdão e renovem a sua fé e o seu arrependimento.
Mat. 6:12; I João 1:7, 9, e 2:1-2; Luc. 22:32; João 10:28; Sal. 89:31-33; e 32:5.
VI. A justificação dos crentes sob o Velho Testamento era, em todos estes respeitos. a mesma justificação dos crentes sob o Novo Testamento.

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